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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Ensaio sobre uma fotografia




Praça Elis Regina, Vila Gomes, São Paulo, SP. Dia 20 de Novembro de 2011.

Na verdade essa não foi uma foto escolhida entre muitas já tiradas, essa foi uma foto escolhida para ser tirada entre inúmeras que poderiam ser. Acabei fazendo o inverso do exercício proposto, pensei sobre uma fotografia que representasse e expressasse o que mais me tocou durante o curso, ao invés de olhar para uma foto e pensar no que ela poderia se relacionar com o que foi falado durante o curso.
Uma praça, não tão comum como deveria ser; a cidade de São Paulo é marcada de arranha-céus e asfalto, tanto que é um privilégio morar perto de uma árvore. Uma escola pública, de Educação Infantil, atrás da praça. É horário da saída e por que não tem nenhuma criança na praça?
O que mais me tocou durante o curso foi a ideia de “não crianças na cidade”; a cidade não foi feita para as crianças e não possui espaços para elas. O botão do elevador é alto de mais, as cadeiras do ônibus são grandes de mais, assim como os balcões das lojas, dos restaurantes; muitas praças não têm brinquedos, muitos espaços não têm segurança. A ideia das crianças na cidade chega a ser absurda, tanto que nem pensamos nisso. Isso porque a infância não é uma categoria social, a criança não é vista como parte da sociedade; podemos atribuir a isso a ideia de que ela não “produz”, no sentido capitalista, nada para a sociedade, e por isso ela não é cidadã, não está inserida. A sociologia da infância defende o oposto, que as crianças produzem cultura e estão inseridas nela, embora uma cultura adulta. Para Qvortrup (1993, apud CORSARO, 2001) as crianças não foram somente excluídas, mas marginalizadas, isto porque são subordinadas à sociedade e às próprias concepções de infância que nossa sociedade possui. De modo geral a criança é vista como o futuro, como algo que deve ser ensinado a todo o momento para ser um adulto bom no futuro, e não alguém que vive agora, que compartilha, aprende e ensina agora, que produz e participa da cultura agora. Essa concepção de preparação para o futuro vem ainda com a perspectiva de socialização, uma perspectiva individualista, que nos faz pensar na criança que aprende e participa, e não uma infância que aprende, participa, ensina, se apropria e inventa. A sociologia vem discutindo é que a fundamental pensarmos em como as crianças criam, recriam, se apropriam e compartilham cultura (CORSARO, 2011).
Apesar de a sociologia vir discutindo a sociologia da infância, e o lugar das crianças como parte integrante da sociedade, ainda estamos longe de se apropriar dessa ideia. Mesmo as escolas não costumam ter esse olhar, e continuam ignorando as culturas que brotam dentro de suas paredes. Como então ter espaços, ou uma cidade que permita a livre circulação e as experiências das crianças se elas nem são vistas como parte da sociedade? Como ver uma praça cheia de crianças na frente de uma escola? Há inúmeras questões que podem ser relacionadas do porque a praça estava vazia no horário da saída, ou do porque as crianças não frequentam regularmente os poucos espaços que são “permitidos” ou “destinados” à elas. A segurança, acredito que é o principal, o primeiro pensamento de todos. É impensável deixar as crianças sozinhas em uma praça no meio da rua, qualquer um pode passar e levar uma criança embora, as crianças podem correr para a rua e serem atropeladas por um carro, ou se machucarem e não vai ter ninguém para atender. Nesta praça há uma área destinada para as crianças, os brinquedos; eles ficam lá no canto da praça, podemos ver na foto. O fato de serem brinquedos no cantinho da praça nos mostra mais uma vez a concepção de infância da cidade; no cantinho, um pedaço pequeno e bem no fim da praça, longe das mesas que os idosos jogam e dos aparelhos de exercício ficam os brinquedos, bem longe para não incomodarem ninguém. De fato nossa cidade e nossa população não são preparadas ou educadas para ter as crianças na rua, mas acredito que se somente a população fosse educada para tal, já seria o suficiente. Porém, bem longe de nossa realidade há o movimento das cidades educadoras, “a ideia de um projeto educativo multidisciplinar, que estipula princípios definidores do caráter educativo de uma cidade.” (MÜLLER, 2007). Diferente do que muitas pessoas acreditam a cidade educadora não é uma cidade a serviço da escola, ao contrário, sua proposta é que a responsabilidade da educação transcenda os muros da escola e da família, e seja também responsabilidade de todos os habitantes. A ideia é que todos os espaços sejam comuns para todos, crianças, idosos e adultos, para dessa forma conviverem e aprenderem a partir das necessidades uns dos outros (MÜLLER, 2007). Pensando na nossa praça, os espaços não estariam divididos entre os brinquedos no canto pra as crianças, as mesas para os idosos no outro e os aparelhos de exercícios e outro canto, mas estariam reunidos, perto uns dos outros e somente dessa forma poderiam ser compartilhadas culturas, experiências e aprendizados. Infelizmente essa ideia da escola ser o local de educação é cada vez mais enraizada em nossa sociedade, pois cada vez mais ela é fragmentada, há um lugar para comer, um lugar para aprender, um lugar de lazer, um lugar dos velhos, um dos pirralhos e um dos adultos, que decidem onde cada um deve ficar.
A fotografia é sempre o olhar do fotografo, a sua perspectiva do cenário, do mundo ao seu redor. A infância é também o olhar de que a vê, de quem a estuda, de que a educa. Segundo Luis Garcia Montero a cidade é também fruto do cada um vê e sente sobre aquela paisagem urbana que habita (CANCLINI, 2008). Sendo assim, a praça para mim deveria ser um espaço repleto de crianças livres não só no horário da saída da escola, mas no horário da escola também. Minha fotografia é preta e branca, pois expressa falta, falta das crianças pela cidade, a falta de cidade para as crianças. Pensando na sociologia da infância, acredito que as crianças são capazes de se apropriar da cidade, de viver a cidade a sua volta, e não ficar a margem da cidade que nós adultos mostramos para elas. É isso, se cada um tem um olhar da cidade as crianças também criam um olhar sobre ela e experimentam ela de formas diferentes dos adultos ou idosos, mas sempre estamos mostrando e ensinando a cidade que nós vemos, impondo nosso olhar, nossa forma de viver e conviver com ela. É claro que as crianças transgredem e recriam seu olhar, da mesma forma que se apropriam e transformam a cultura, criando culturas infantis. Mas mesmo assim, há poucas possibilidades de elas expressarem a cidade que sentem e que vivem.

Referências Bibliográficas
CANCLINI, Nestor Garcia. Imaginários culturais na cidade: conhecimento /espetáculo / desconhecimento. In: A cultura pela Cidade. São Paulo. Iluminuras, 2008.
CORSARO, Willian. Teorias sociais da Infância. In: Sociologia da Infância. Tradução: Lia Gabriele Regius Reis. Porto Alegre, Editora Artmed, 2011.
MÜLLER, Fernanda. Retratos da infância na cidade de Porto Alegre. Tese de doutorado. UFRGS. Porto Alegre, 2007.

Trabalho realizado na disciplina Apropriações do Urbano em Novembro de 2011.

sábado, 12 de junho de 2010

Brincar Educa

“Brincar é aprender” já se tornou um chavão da educação, em qualquer instituição educacional que se ouve de profissionais da educação, como professores e coordenadores, que a brincadeira incentiva o desenvolvimento da criança. “Brincar educa” é uma verdade educacional e como tal, se apóia em saberes para legitimar-se.

Na reportagem de Talita Bedinelli, Escolas de SP usam recreio para aplicar jogos e brincadeiras antigas, publicada na Folha Online, no dia 19/04/2010 reconhecemos alguns desse saberes que produzem a “verdade” de que a brincadeira pode sim educar. A reportagem explica como algumas escolas estão transformando o recreio em um momento de aprendizagem, por meio de brincadeiras antigas e jogos de tabuleiro.

No segundo parágrafo da reportagem já podemos identificar uma “verdade” posta, da qual a as escolas partem do princípio para a mudança; O texto afirma que “O objetivo (da mudança) é transformar o recreio em um momento de aprendizagem”, o que implica que sem a intervenção dos professores e desses jogos específicos, a criança não aprende nada durante o intervalo. O saber pedagógico está implícito nesta imagem na medida em que não se acredita que sem a pedagogia, sem a intervenção pedagógica, é possível aprender. Por outra perspectiva, olhando o quadro, temos ainda que o recreio, segundo a escola, deve ser um momento de aprendizagem. Essa visão porem é alertada por uma educadora (Marisa Elias) no terceiro parágrafo, que afirma que “o recreio é liberdade”, mas seguindo adiante na reportagem, reconhecemos outras justificativas para a legitimação da verdade.

Essas justificativas se baseiam em uma definição de aluno, de tipo de sujeito e em valores que são típicos da nossa sociedade e, por tanto, da educação. A partir dessa definição de sujeito e dos valores da educação a reportagem afirma a “verdade”, pois os pais e os profissionais da educação que lêem reconhecem suas concepções de filho e de aluno e seus próprios valores. Nesse ponto outro saberes além do pedagógico, entram em ação, como o psicológico, psicopedagógico e etc., sendo eles outra forma de legitimar a “verdade”. Os tipos de saberes se entrelaçam dando força, poder aos discursos de cada um.

O sujeito colocado no texto é definido por não saber brincar, ele é alienado, é inseguro, não sabe impor suas idéias e até um “mini-adulto”, que torna brincadeira atividades que fazem parte do cotidiano. Quando no sexto parágrafo a coordenadora do colégio Pentágono afirma que as crianças “têm dificuldade de iniciar uma brincadeira. Eles estão sempre à espera de alguém propor” ela afirma duas características sobre seus alunos: a primeira é que eles não são autônomos, eles dependem da escola, da professora para brincar; A segunda característica que ela coloca é que tudo o que os alunos fazem durante o recreio que não é proposto pela professora – porque sim, eles fazem “coisas” no intervalo sem a professora -, não é brincadeira, ou seja, eles não sabem brincar. Dessa forma ela caminha para outra verdade, a de que a única brincadeira real é aquela que educa. Ao final da reportagem temos a afirmação da professora da universidade (Maria Angela Carneiro), que coloca o saber psicológico indo de certa maneira contra à mudança no recreio da crianças; Ela afirma que se as professoras interferem em todos os momentos nas brincadeiras as crianças “podem virar adultos inseguros”, já que eles não têm autonomia em momento nenhum. Mas de maneira nenhuma essa frase deslegitima a “verdade”, de certa forma ela afirma ainda mais, já que faz uma ressalva para que as escolas não exagerem, mas façam sim.

Por último temos os valores que permeiam os saber pedagógico de maneira concisa, o que faz com que na reportagem eles tenham papel fundamental. É por meio deles também que outras escolas e os pais vão se identificar com a “verdade” e assumi-la como tal. Um dos valores mais importantes identificado no texto para convencer o leitor, que também é um sujeito definido – pessoas que têm idade superior a 30 anos– é o tradicionalismo. A repórter afirma que as brincadeiras mais procuradas são as mais antigas e mostra uma de uma mãe critica ao tempo gasto no computador. Essas afirmações se conectam com as verdades populares de que o antigo é melhor, vai de encontro com “no meu tempo... era muito melhor”, dessa forma o leitor toma para si a “verdade”, pois ele identifica seus próprios valores nela. Outro valor identificado é o da disciplina. A disciplina nunca pode estar fora do saber pedagógico e, no texto ela usa o saber social. No segundo parágrafo a coordenadora do colégio Santo Américo diz que ”Quando a criança aprende a brincar, ela aprende a respeitar regras, a saber esperar, a respeitar limites”; Esse são valores essenciais impostos pela sociedade, para fazer parte da sociedade é preciso aprender a respeitar regras.

Bibliografia

• SILVA, T. T. (2003) Dr. Nitzsche curriculista – com uma pequena ajuda do professor Deleuze. In: CORAZZA, S.; TADEU, T. Composições. Belo Horizonte: Autêntica, p. 33-57.

• BEDINELLI, Talita. Escolas de SP usam recreio para aplicar jogos e brincadeiras antigas. São Paulo; 2010. In: ww1.folha.uol.com.br/folha/educação/utl305u722777.shtml. Acessado em 20/04/2010


Trabalho realizado na disciplina Sociedade de Controle em Abril/10